Ana Luiza

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A ironia entre abortar e renascer.

2017 Brazil

What were your feelings about doing the abortion/s?

How did you do the abortion?

Há aproximadamente 8 meses atrás, comprei um teste de farmácia mas com absoluta certeza de que era só mais um susto como os rotineiros que a minha menstruação costuma me dar. - PARABÉNS, MOÇA! - me disse a farmacêutica quando fui confirmar com ela se aquele sinal maldito no palito mijado era mesmo uma confirmação da minha ruína. - É procedimento, Luiza – minha prima que trabalhava em um laboratório e estava me entregando o segundo teste que eu precisava pra entrar em colapso, me explicando o porquê da parabenização desnecessária. Eu tenho 23 anos, sou uma universitária medíocre, estudante de Direito e seguindo a velha piada do “fazendo errado”. Há 11 meses terminei um relacionamento extremamente abusivo, que mesmo sempre tendo me considerado uma grande militante feminista, eu não percebi o que estava vivendo até alcançar o fundo do poço e abraçar a Samara; nos tornamos amigas íntimas, inclusive. Ele não lidou bem com o fim do relacionamento, além do mais foram 2 anos de uma relação doente que eu já nem posso distinguir quem era a parte mais patológica da relação, ele que me escondia da família e me controlava se batendo e chorando ou eu que permaneci em detrimento da minha saúde mental, eu lidei de forma ainda pior. Quando finalmente consegui terminar, ele me expôs no Facebook. Eu perdi meu semestre da faculdade, fui diagnosticada com transtorno generalizado de ansiedade e ao invés de tomar os medicamentos prescritos pela psiquiatra, eu fiz a minha própria receita da felicidade: álcool, maconha (silenciando aquela vozinha interior que te lembra que você fracassou em se amar) e sexo casual; além do mais, minha filosofia sempre foi “cole um coração quebrado com porra” antes de amadurecer e perceber que eu não estava exatamente me “consertando” mas ativando um botãozinho de autodestruição ao som de Vanessa da Mata cantando “Você vai me destruir como uma faca cortando as entradas”; mesmo desorientada sou uma romântica incurável. Acredite. Instalei o Tinder, conheci várias pessoas, me relacionei com várias delas e para meu infortúnio conheci um estudante de psicologia que estava na mesma sintonia que eu: sintonia do foda-se, aquela do viver rápido e morrer jovem. Tivemos um “relacionamento aberto” e sexo desprotegido, brisado e alcoolizado por um mês mais ou menos. Eu já estava além de desorientada, desempregada, já não sabia o que era faculdade ou família; só queria saber de afogar as mágoas em drogas lícitas ou não e em líbido. Eu nunca tive exatamente um quociente emocional equilibrado, mas também nunca havia chegado a um patamar tão obscuro quanto no início desse ano. O karma não brinca em serviço, quando você precisa viver lições intensas para crescer e aprender algo sobre a vida, aparentemente elas vêm todas de uma vez. Pelo menos no meu caso foi assim: há 1 ano atrás, minha avó e minha madrinha faleceram praticamente juntas e por mais que eu pensasse que não tinha me doído tanto assim, eu não estava nada bem e fui descendo ladeira abaixo com a minha bola de neve grudenta, veloz e pesada. E eu bati, bati em uma gravidez indesejada onde ambos os pais eram duas crianças extremamente feridas e inconsequentes, essa era a realidade. Cai na bobeira de contar às minhas primas católicas que além do discurso onde Deus me puniria, acabaram rodando a informação para amigas de infância que me mandaram várias mensagens perguntando como faríamos a festa de “descoberta do sexo” e essa frase está errada de tantas formas na minha concepção que na época nem me dei ao trabalho de respondê-las. Nem se deram ao trabalho de perguntar se eu estava bem, só estavam tentando me fazer engolir uma realidade que era ainda pior do que a que eu já estava vivendo; além do mais, só eu estava na minha pele para entender todas as minhas incapacidades e conseguir me perdoar por isso. O meu Deus nunca foi punição, os seres humanos já usufruem muito dessa faculdade, Deus é amor. Sem dinheiro algum, eu pedi o cartão de crédito de um amigo na época para comprar a medicação através da ajuda da Womenhelp e pra minha surpresa chegou muito antes do prazo previsto e em um valor razoavelmente acessível de 250 reais, o que foi um alívio gigantesco porque eu estava bem preocupada com os meses de gestação passando, mas eu estava quase chegando nos 3 meses então deu certo. Felizmente, mesmo desorientado como eu, o menino que eu “namorava” me cedeu a casa dele para passar a semana e acompanhou todo o processo comigo. O processo inteiro foi mais leve do que o que eu já tinha lido sobre nos casos de outras mulheres, claro que senti algumas cólicas intensas em alguns momentos, uma avalanche de sentimentos por conta dos hormônios da medicação e tudo o que eu já estava vivendo, o que não foi exatamente um mar de rosas mas também não foi a caixinha de pandora que a grande maioria das amigas feministas estavam aterrorizando quanto aos riscos físicos e dores; talvez o que doa mais seja o emocional, dependendo da sua condição no momento, mas eu tenho em mim que tudo passa. Eu não tinha condições físicas, psicológicas, financeira e qualquer outra condição de colocar uma vida no mundo ainda mais sob a minha responsabilidade (que não cuido nem de mim), porque ainda há uma parte coerente e consciente em mim que não permitiria isso; basta o exemplo que eu tenho dentro de casa de alguém que não queria ter filhos e teve por obrigação moral ou legal, então… Não! Obviamente o lado espiritual me pesou porque eu fui criada no espiritismo, mas mantive em mente que nenhuma folha de árvore cai sem que Deus queira e essa foi uma lição de mudança de vida. Há 5 meses estou sóbria e consegui tirar até mesmo o meu maior e pior vício que era o tabaco, nessa mesma época tive um transtorno dissociativo decorrente do estresse acumulado e problemas com a minha mãe mas consegui me reestabelecer. Muitas vezes quando faltava ar e eu começava a me questionar ou julgar ou ainda pior, vontade de voltar a beber ou fumar, eu só puxava uma respiração pesada ou colocava alguma meditação de cura, ho’oponopono ou yoga no youtube e repetia afirmações de amor para comigo mesma que eu acho que no final das contas foi essa ausência de amor que me levou a tantos extremos. Voltei pra faculdade, onde a grande maioria das pessoas sabem muita coisa que me aconteceu mas mantenho o velho pensamento do “não me pertence” porque não me pertence a opinião alheia sobre nada, ninguém sabe o peso que eu carrego, o que eu consigo carregar e o que eu quero carregar; e a recíproca é verdadeira. Estou entregando currículos para estágio, na verdade, tenho procrastinado essa parte mas voltar a faculdade já foi um passo gigantesco, acredite hahaha Comecei a trabalhar a mediunidade em um lugar chamado Vale do Amanhecer, trabalhando na lei do auxílio, fiz alguns tratamentos lá antes e duas desobsessões severas na umbanda (pra quem acredita, claro) com uma falange de preto velhos. Acho que o que eu quero dizer a você que está buscando um apoio nesses textos, como eu já fiz um dia, é que você é dona de si e mais ninguém. E só você sabe a força que tem para tomar as suas decisões e lidar com elas para o resto da sua vida, tanto optando em ter ou optando em não ter. Deus não vai te punir, acredite, Deus é amor, nós que não nos amamos o suficiente mas sempre é tempo para começar. E não se engane, a sua mente / consciência e seu inconsciente muitas vezes podem tentar te punir, mas eles fazem isso com qualquer decisão que você tome e essa não é mais pesada que as outras; só é um tabu nessa sociedade hipócrita que finge que o aborto não acontece. E se você que está me lendo, também está passando por muita coisa ou só não quer mesmo ter um filho, siga sua intuição. Não se deixe levar pela opinião ou julgamento das pessoas, no final das contas é a sua vida e só você sabe o que é melhor para você. E busque uma forma de manter seu equilíbrio emocional e espiritual, através de meditações, orações, terapias holísticas ou psicoterapia; mas cuide de si mesma. Ninguém cuida de ninguém além de si mesma, aprendi da forma mais dura mas aprendi, talvez ainda esteja aprendendo, claro, eterna aprendiz hahaha Segue uma indicação de meditação que me manteve sã quando eu mais temi cair novamente: https://www.youtube.com/watch?v=ro_i7o3oYxk&t=6s Irmã, saiba que Deus está com você, estamos todas ligadas pela Grande Mãe Natureza e você não está sozinha em nenhuma decisão que decida tomar. Outra mensagem de força: https://www.melhorconsciencia.com.br/2011/10/isso-tambem-passa-chico-xavier/ Espero que fique tudo bem por aí, por aqui já está ficando. Assim é. Sinta-se abraçada, se não por mim, por você mesma. É isso que importa.

What was your situation at this time?

Did the illegality of your abortion affect your feelings?

Me afetou mais depois do procedimento pois fui em uma UAI (SUS) específica para gestantes e ainda estava dando positivo no início, então na euforia fingi que era gravidez psicológica e fui embora. Mas depois fui em uma ginecologista e contei tudo, inclusive do meu medo em ser delatada, e ela me disse que mesmo sendo ilegal, tem a questão ética do médico e na verdade, ela me tratou muito bem.

How did other people react to your abortion?

A grande maioria não me apoiou com os típicos julgamentos "religiosos" e as indagações sobre as minhas crenças sobre ser punida por Deus; mas ainda teve uma minoria que só me ouviu e acolheu, inclusive minha avó me incentivou a abortar e então eu descobri histórias de uma máfia silenciosa de mulheres na família que abortaram.

legal/illegal

What is your religion?