Camilla Ferraz

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Fiz um aborto porque tenho o direito de decidir meu futuro e minha história.

2013 Brasil

Quais foram seus sentimentos em relação ao aborto(s)?

Como fez o aborto?

Eu já tenho um filho e só Deus sabe o que eu tenho que enfrentar para criá-lo. Tenho o apoio do pai e da família dele, mas quem pega no pesado mesmo sou eu. As maiores despesas correm por minha conta e a avó dele reclama muito, de qualquer coisa. Minha família mora em outro Estado. Ou seja, não muito com quem contar por aqui. Eu relutei em fazer o teste de gravidez, acreditando que as falhas no meu ciclo menstrual se deviam ao fato de eu ter tomado a pílula do dia seguinte. Mas chegou uma hora que não deu mais, os enjôos aumentando, as mamas crescendo, tonturas, fome exagerada... Acabei comprando o teste de farmácia "por desencargo de consciência", mas deu positivo. Quase caio de costas de tanto susto. Pensei que tivesse feito errado, corri na farmácia e comprei outro para ter certeza e deu positivo de novo e para completar, fiz exame de sangue e aí sim sanaram-se todas as minhas dúvidas e todas as minhas esperanças de ter me enganado com os testes de farmácia foram por água abaixo: estava realmente GRÁVIDA!!! Pensei no aborto logo de cara. Como criar mais uma criança nas atuais circunstâncias? Eu me virando sozinha sempre, me privando de vida social, a cara feia da sogra, o pai irresponsável que mal dá conta do único filho que tem, minha família longe... Realmente não dava, sem falar que meu filho tem apenas 11 meses e ainda é muito dependente. Como disse anteriormente, o pai do meu filho não queria o aborto, mas depois mudou de ideia. Não encomendei os medicamentos pelo Women on Waves por ter visto relatos de pessoas que compraram e demorou muito pra chegar. Já estava com quase 9 semanas e o tempo valia ouro, pois sei que quanto mais demorar, é mais complicado fazer o aborto. Então o meu namorado conseguiu através de um amigo dele uma pessoa que vendia e comprei 4 comprimidos de Citotec, da marca Continental Pharma. Tive medo de ser falsificado, mas me enchi de coragem e coloquei um comprimido na vagina e esperei. Horas depois veio um sangramento leve e então coloquei outro comprimido e ingeri mais dois. Três horas depois o sangramento se intensificou e as dores idem. Mesmo com cólicas, deitei e consegui dormir um pouco. Acordei por volta de 01:30h da madrugada com fortes contrações, iam e vinham em espaços de tempo muito curtos. Tive diarreia (acredito que pela pressão do útero sobre o intestino) e então vi que haviam caído um pedaço grande de sangue coagulado no meu absorvente, semelhante a um bife de fígado bovino, mas bem vermelho. Percebi também que caíram alguns pedaços no vaso sanitário, mas não tive como ver porque a lâmpada do meu banheiro queimou bem no dia e o meu vaso também é preto, de modo que não teria mesmo como ver muita coisa. De repente a dor passou, foi como "tirar com a mão". Agora sei porque as mães que têm filhos de parto normal falam que depois que o bebê nasce, a dor passa instantaneamente. Dormi o restante da noite e no outro dia acordei bem, levantei, fiz mamadeira do meu filho, fiz café da manhã, organizei algumas coisas, sem sentir nada mas ainda tinha dúvidas, não sabia se de fato o aborto tinha ocorrido ou se só sangrei mesmo. No outro dia, quando fui pegar a roupa e colocar na máquina pra lavar, encontrei no short do meu pijama um pedaço de tecido que acredito ser o saco gestacional. fiquei péssima na hora, comecei a chorar e por coincidência, encontrei um corpinho de um passarinho morto no chão da área da minha casa, sem pena nenhuma, parecia que o ovo caiu do ninho e quebrou. Fiquei mal o dia todo, apesar de saber que ainda não era a hora de ter outro filho. Dois dias depois, fiz uma ecografia pra saber como estava meu útero. A médica confirmou o aborto, mas disse que ainda estava em curso, que ainda estava com sangramento ativo e que pode ser que eu venha a precisar de curetagem. Na segunda-feira vou levar no ginecologista para ver o que ele me indica. Saí da clínica muito abatida, cheguei em casa e chorei muito. Não por arrependimento, mas por ter permitido que aquela gravidez tivesse acontecido, por não ter me protegido mais. Eu e meu parceiro vivemos em pé de guerra, ora estamos bem, ora estamos mal e foi justamente aí que eu errei. Me culpo por ter que sacrificar um ser inocente, mas realmente não tinha condições de sustentar mais uma criança. Eu quero futuramente ter outro filho, mas em melhores circunstâncias. De tudo ficou a certeza de que não quero ter que passar por isso novamente e que de agora em diante, prevenção sempre.

Como era a sua situação nessa altura?

A ilegalidade de seu aborto afetou seus sentimentos?

Bastante. Eu sou profissional de saúde e volta e meia a gente vê um caso de aborto mal sucedido, feito com medicamentos ou em clínicas clandestinas, ou até mesmo em casa, quando algumas mulheres introduzem objetos pontiagudos na vagina, causando danos seríssimos, resultando em mortes. Tive medo de tudo. Medo de infecções (ainda tenho), de morrer, de deixar meu filho crescer sem mãe, de uma ruptura uterina por ter feito uma cesárea a menos de um ano, de ter uma criança doente e que me daria mais trabalho e mais despesas do que uma criança perfeita, dos julgamentos que receberia e enfim.

Como as outras pessoas reagiram ao seu aborto?

Eu só compartilhei com meu esposo sobre a gravidez. No início ele foi radicalmente contra, mas depois pesou na balança nossa atual situação e resolveu me apoiar. Não comentei com outras pessoas que pretendia fazer um aborto primeiro porque não poderiam me ajudar e segundo, não estava interessada em julgamentos moralistas.

lega/ilegal

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