Noêmia

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2016 Brazil

What were your feelings about doing the abortion/s?

How did you do the abortion?

Fazem quase dois meses do meu aborto. Women on Web me ajudou muito com as informações, por isso, desde que fiz o processo tenho pensado em como escrever meu relato. Nesse tópico vou falar sobre minha experiência e os motivos que me levaram a optar por interromper a gravidez. No final vou detalhar melhor o procedimento com os remédios e deixar meu email, caso alguma moça queira conversar. Tenho 29 anos, moro em São Paulo e fiz um aborto dia 9 de setembro de 2016. Eu estava em uma fase bem complicada da minha vida. Larguei um emprego por descobrir um esquema escroto dentro da empresa que trabalhava e acabei voltando p casa dos meus pais depois de quase 10 anos morando sozinha. Essa era o cenário da história. Conheci um rapaz mais novo. Ele me parecia uma pessoa alegre que faria bem de alguma forma. Tenho depressão e costumo me relacionar com pessoas meio depressivas também. Então essa pessoa, que chamarei de D. me atraiu por parecer ser o exato oposto do que sou. Estava muito solitária, sempre fui muito desconfiada com relacionamentos em geral, mas acho que por isso mesmo acabei querendo estar com D. Foi muito rápida a relação. E pensando bem, muito arriscada. Ele me dizia que estava apaixonado logo de cara, e eu também estava sentindo algo bem forte que até hoje, não entendo exatamente o que era. Não era só atração física, também não era amor. Logo depois de nos conhecermos D. me convidou para ir a praia, por um final de semana. Ficamos juntos, transamos. Enfim, tudo com muito carinho. Eu levei camisinhas, mas numa dessas relações acabou que por um tempo não usamos. Alguns minutos. Todas as vezes tive que insistir muito p colocar camisinha, e isso é muito irritante. Será que eles não pensam? Eles não pensam na nossa segurança. Nessa mesma semana , havia perdido meu celular que tinha um aplicativo que monitorava meu ciclo dizendo se estava fértil ou não. Sempre fui responsável, e acho que nunca vou conseguir explicar porque exatamente deixei isso acontecer. Por razões que desconheço, nesse mesmo dia na praia nós falamos muito sobre vontade de ter filhos e acabei contando para ele sobre quando tive um aborto espontâneo. Enfim, me abri muito. Coisa que raramente faço, e nunca com alguém que conhecia há pouco tempo assim. Quase ninguém sabe disso, na época foi tão doloroso que não quis falar sobre o aborto. Foi na oitava semana e eu estava bem feliz com a possibilidade de ter um filho. Meu ex-companheiro beijou minha barriga todos os dias até o dia que perdi o bebê, na 8ª semana. Logo que voltamos, tomei pilula do dia seguinte (quase 24 h depois da relação) e fiquei bem preocupada em pegar alguma dst. Sempre me cuidei muito e já estava acostumada a usar camisinha. Sabia que não tinha sido por muito tempo o contato sem preservativo, ele não havia gozado dentro, mas mesmo assim a paranóia bateu forte. Jurei nunca mais vacilar na vida, colocar um Diu... Marquei ginecologista rezando para não ter nada, pois tenho endometriose e é as chances de infecção são muito maiores. Deixamos de nos ver, continuamos conversando por mensagens. Até que duas semanas depois de fircarmos ele me disse que tinha conhecido outra pessoa. Me senti um pouco rejeitada e idiota. Sabia que não seria nada realmente sério desde o começo, e no fundo, acho que só queria uma breve história mesmo. Ele era imaturo e possivelmente um babaca (o que se confirmou depois). Eu confirmei a gravidez 3 dias antes do meu aniversário de 29. Estava bem no começo, 5 semanas. Meu corpo já estava completamente diferente, inchado e os seios doíam muito. Fiz 4 testes de farmácia com uma amiga do lado. Eu não chorei na frente dela, mas de cara já disse que não queria ter esse filho. Ela disse para pensar bem, mas que me apoiaria qualquer que fosse a decisão. Não que estivesse 100% de certeza, porque nunca tive . Mas porque não queria ter um filho com esse cara, não queria agora e definitivamente não morando com meus pais. Me senti culpada demais por ter viajado, culpada pelo deslize... Enfim, aprendi que na gravidez nada é racional. Nada. Sentia muitas coisas diferentes, e foi uma decisão muito difícil no meu caso. Porque sempre quis ter filhos. Porque tenho 29 anos, não 16. Porque se fosse com qualquer outro cara q já tive relacionamento, provavelmente teria seguido em frente com a gravidez. E é um pouco egoísta pensar assim, porque criança nenhuma tem culpa do pai que tem. Mas é isso. Não é racional. São milhões de motivos que você pode ter para fazer um aborto, e todos eles são VÁLIDOS. Porque é o seu corpo, e sua vida em jogo. Cheguei a pensar em não contar para D., já que terminamos essa relação. Mas não tinha muito dinheiro e não queria contar para as pessoas que poderiam me ajudar. Não queria contar para os meus pais, principalmente. Meu pai teve câncer ano passado, a esposa do meu irmão tinha acabado de sofrer um aborto de uma gravidez desejada e minha família não tem nenhuma criança. É bem triste, mas meus pais estão naquela idade que querem muito netos. Fariam de tudo para me convencer a ter esse filho. E eu não sabia ainda o que queria ainda. Fora que existe a questão religiosa também. O D. não queria me encontrar pessoalmente, então contei via mensagem. Foi muito ruim! A reação dele foi estúpida, egoísta e agressiva. Chorei muito, fiquei com muita raiva. Nunca experimentei uma raiva desse nível na minha vida. Sou muito calma, muito mesmo. Aquela reação foi horrível. Tinha deixado claro que cogitava o aborto para ele. Mesmo assim , me xingou , disse que não queria ser pai...Uma série de outras coisas. A partir daquele momento, sabia que ele não teria nada a ver com a minha decisão e que não queria vê-lo nunca mais. Acho que esse foi o primeiro passo importante. Nunca tive tanta raiva de uma pessoa e se ainda não tinha 100% de certeza sobre o aborto, mas a reação dele me ajudou muito a decidir. Não queria um lixo daquele como pai de uma criança. Já vi muitas amigas sofrendo por ter tido filhos com homens babacas, que não davam a mínima para criança, ou que faziam só o “mínimo” pelo filho. E não estava disposta a passar por isso. Encarar juiz, suplicar por pensão, sobrecarregar minha mãe... Enfim: enxerguei um futuro que não queria e uma situação desfavorável no presente. Se você está lendo esse relato, provavelmente está decidida ou considerando interromper a gravidez. Se pudesse dizer algo para ajudar, diria para tentar ouvir sua voz interna primeiro. Quando não sabemos que caminho tomar, ouvimos demais as pessoas. E essa decisão vai te afetar para sempre. Como disse antes, não existe nada racional na gravidez. Sua percepção e sentimentos ficam alterados, e é uma decisão que você tem que tomar rápido, pois envolve riscos. Tive muita sorte, principalmente por descobrir rápido. Foram duas semanas para pensar, tomar minha decisão e articular como e onde faria. Essas duas semanas foram horríveis, esconder a gravidez da família foi o mais doloroso. Por vários dias dormi chorando querendo me matar. Sim, eu pensei em me matar. Porque sabia não querer esse filho, mas também sabia que sofreria muito com o aborto. No dia do meu aniversário de 29, uma moça da minha idade morreu no Rio vítima de aborto clandestino. O corpo dela foi encontrado numa vala. Saiu no jornal e aquilo mexeu muito comigo. Fiquei obcecada pela notícia, tentei descobrir todos os detalhes. Na reportagem saiu a troca de mensagens dela com o “pai”. O cara deixou ela viajar sozinha para o Rio fazer o aborto, no quinto mês de gestação ( aborto só podem ser feitos até o terceiro mês). A última mensagem dele para ela era igual a D. para mim : “ Boa sorte”. Nunca vou esquecer isso, porque acho inadmissível vivermos num país que as mulheres morrem fazendo abortos clandestinos o TEMPO TODO, enquanto os homens abandonam nossos filhos. Se posso tirar algo positivo dessa experiência, foi ter contado para os meus amigos e para meu irmão. Fui muito acolhida e nunca achei que era tão amada pelos meus. Ele acabou contando para uma amiga minha muito antiga e para meu ex namorado. Eles me ligaram chorando muito, e disseram que se eu quisesse ter esse filho me ajudariam a criar. Todos estavam muito apavorados com a história da moça que morreu. Acho que por uns 2 dias pensei sinceramente em ter o filho, ir morar com meus amigos no interior , voltar a ser professora. Enfim, digo isso porque tracei vários futuros possíveis, e você deveria fazer o mesmo. Pense bem nas possibilidades, no que você quer para sua vida e nos seus desejos mais íntimos. As duas decisões são dignas, dificuldades sempre irão surgir. Mas é a sua vida. Depois converse bastante com pessoas que você confie. Caso sua família ou seus amigos te julguem, procure um grupo feminista mais próximo. Não tenha medo. É muito normal sentir medo, mas o medo não pode nos paralisar a ponto de não conseguirmos tomar decisões. Não tem certo ou errado. É muito importante se sentir amada e acolhida. Infelizmente, a maioria dos homens são muitos escrotos e talvez seu companheiro seja um. Mas você é capaz de tomar essa decisão sozinha. Aliás, só você. Mesmo quando considerei ter esse filho, sabia que faria tudo para manter o "pai" longe dessa criança, pois senti uma energia muito pesada dele quando contei e sabia que esse cara não seria uma boa pessoa em nossas vidas. Fui a uma médica feminista que foi um grande anjo nesse processo todo. Disse que estava considerando o aborto, mas tinha muito medo por causa da endometriose. Ela me explicou o funcionamento dos medicamentos e conversou longamente comigo. Pediu exames e disse para não tomar nenhuma decisão sem conversar com ela antes, E.L. foi realmente a pessoa mais incrível que poderia ter me acompanhado nesse processo e agradeço muito por nossos caminhos terem se cruzado nesse momento. Desde então, nos tornamos amigas. Nesse tempo li muito o Women on web e outros sites a respeito da combinação de misoprostol e mipheterona. Tive muito medo, queria fazer o aborto clínico, mas aqui em Sp custa 5 mil reais. Não tinha esse dinheiro e nem para quem pedir. O babaca do meu filho já tinha dito que não tinha dinheiro. E.L. me acalmou, disse que essa combinaçao é muito segura, que tem sido feita em vários países e que minha gravidez estava muito no começo, o que aumenta as chances de sucesso. (no próximo tópico explico melhor sobre o processo em si) Não sei se você acredita em alguma coisa, se tem religião ou é ateísta. Mas acho que a gravidez faz nosso instinto ficar muito apurado. Eu senti uma energia horrorosa dessa pessoa, de D. quando contei da gravidez. Ali eu soube que me envolvi com um ser humano egoísta e escroto que vai sofrer muito no futuro por ter feito isso comigo. Bom, pelo menos é o que acredito. Que nós pagamos pelas coisas ruins que fazemos ao outro. Mas também sabia que se ele apareceu na minha vida, é porque precisava tirar alguma lição. E tomei muitas. Ficou decidido no meu coração, que mesmo que depois do aborto, faria algo muito bom e muito bonito nessa vida. Para mim e para os outros. Porque são nos momentos de dor profunda que nós descobrimos nossa luz. E não poderia deixar uma pessoa lixo arruinar minha vida. Mesmo que sua religião condene o aborto, por favor, saiba que não há nada errado em tomar escolhas conscientes na sua vida. Não há. Os homens que abandonam seus filhos que devem sentir essa culpa. Não você. Até 12 semanas o que temos não é sequer um feto, é um embrião. Embriões congelados são descartados todos os dias nas clínicas de fertilidade. O aborto ser proibido é um absurdo ético. Não tem lógica. Não há religioso que posso julgar sua escolha. Dois dias antes, fui no terreiro, ajoelhei e pedi muitas desculpas para os meus protetores. Meu guia me disse que esse filho ia ficar no meu ombros, mas que respeitaria qualquer decisão. Me deu um passe, saí de lá me sentindo muito forte. “estar nos meus ombros” significava ali que essa decisão iria me acompanhar. Seja pela ilegalidade, seja pela intervenção no meu corpo. Hoje, dois meses depois, faço o possível para pensar nas lições que tomei, mas também para não me culpar. Religião ou espiritualidade pode te ajudar nisso. Mas não aceite julgamento dos outros. Minha amiga M. ia me acompanhar no processo. Ela leu muito sobre também e estava bem calma. Minha medicação veio da argentina ou Uruguai, uma conhecida trouxe p gente. Tive que confiar que era de boa procedência por ser um grupo feminista de lá que consegue. Mas aconselho buscar o women on waves ou pedir p algum conhecido comprar na Europa, e enviar por correio. Existem muitos golpistas no Brasil, e o Miphe praticamente não existe aqui. A combinação dos dois medicamentos é bem mais segura. Aluguei um quarto num hotel para ficarmos dois dias. Não queria fazer na casa de ninguém, queria estar num lugar que nunca mais voltasse e assim foi. As 17h do dia anterior, tomei a Mipheterona. Ela serve como um “bloqueador de hormônios”. Como se fosse avisar seu corpo que ele vai deixar de estar grávido. Existe a possibilidade de se sentir enjoada e ter algum sangramento. Não aconteceu comigo. Na verdade eu tive uma febre de 38º rápida, no dia seguinte acordei me sentindo muito bem. Passei a gravidez inteira me sentindo mal, sem energia e com dores. Foi o primeiro dia que acordei bem. Esse medicamento tem que ser tomado 24 horas antes do Misoprostol (citrotec). Fui almoçar com M. e fomos para o hotel. Levamos um monte de chocolate comidas gostosas. Em cima da mesa, deixei uma folha com telefone e endereço de todos os hospitais que tinham perto do hotel, caso fosse necessário. Ligamos a tv e fiquei deitada na cama abraçada com ela. Quando tomei coragem, coloquei os 4 comprimidos debaixo da língua e esperei dissolver. Os 4 comprimidos colocados debaixo da língua são mais eficazes do que colocados diretamente na vagina, pois não deixa resquícios caso você tenha que ir ao hospital em seguida. Demorou uma meia hora para dissolver, e foi muito nauseante. Mas não vomitei. As cólicas começaram já intensas. Fiquei com as pernas para cima e bem quentinha na cama. A dor era paralisante e não conseguia achar uma posição confortável. Tive febre e tomei paracetamol. Às 19h começaram os picos de dor e contrações. Foi muito horrível. Perdi bastante sangue. Quando fui no banheiro, de repente a dor voltou a ser suportável. Olhei no vazo tentando ver alguma coisa, mas só via um amontoado de sangue. Eram coágulos. Mas pareciam pedaços de carne saindo de mim. Acho que foi ali que o aborto se concretizou. Eram 21h e tomei os dois comprimidos restantes. Doeu muito até de madrugada. Não sei dizer quantos horas exatamente durou. Fiz algo que não deveria ter feito, tomei 4 comprimidos de dorflex depois de tomar parecetamol. Minha amiga acompanhou tudo. Segurando minha mão. Me deu banho e me levantou do chão várias vezes. Nunca vou esquecer isso. Até hoje fico chocada de como ela foi calma. Não sei se conseguiria me manter tão calma no lugar dela. Todo tempo E.L. estava acompanhando por mensagens, assim como meus 3 amigos que sabiam da história. Depois disso sangrei por mais duas semanas seguidas. Tudo dentro do esperado. Também senti dor por quase 1 mês ( o que não é normal, mas achava que era). Quando não estava mais aguentando, voltei na médica reclamando das dores no pé da barriga. Eu estava com Clamídia. Peguei do D. É uma doença de tratamento fácil, que causa inflamação no útero. No caso da gravidez, se passar para o bebê pode causar cegueira (!!!) . Quando soube disso fiquei ainda mais arrasada e ainda me sinto muito por essa situação arriscadai. O tratamento são 15 dias de antibióticos. Já tomei e fiz os testes. Estou curada, mas naõ sei quando vou parar de me culpar por isso tudo. Minha depressão piorou muito, ainda não consegui voltar a vida social normal. Estou lutando para ficar bem. E vou. Eu não posso te ajudar a fazer um aborto. Mas posso te ajudar conversando antes ou depois de fazê-lo. meu email noemiawho@gmail.com

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